21 de fev de 2013

O verdadeiro início da Banda Salário Mínimo

Com a firme e forte chegada da Internet no Brasil de alguns anos para cá, é possível fazer vastas pesquisas e encontrar matérias sobre os mais variados tipos de assuntos. Também é muito comum encontrar várias informações equivocadas ao realizar uma pesquisa. O assunto dessa matéria é música e refere-se a uma banda de rock que fiz parte por quatro anos - 1977 a 1981 - e como li algumas coisas em blogs e sites que não são verdadeiras, fiz essa pequena biografia de como surgiu a Banda Salário Mínimo.
A única intenção dessa matéria é somente deixar registrada a verdadeira história. Nada além disso, que fique bem claro à todos que a lerem.
Então, vamos lá.
Ano: 1977 Local: Colégio Pde. Sabóia de Medeiros (Chácara Sto. Antonio). Zona Sul de São Paulo.
Estudávamos num colégio onde haviam roqueiros cabeludos e a turminha de "burgueses", como eram chamados os boyzinhos na época. Muita mulher bonita fazia parte do cenário. A turma do rock da qual eu fazia parte, era minoria. Juntávamo-nos para ouvir Led Zeppelin, Stones, Yes, Rush, Sabbath, Hendrix e mais uma pancada de gente boa daquela época. Isso incomodava um pouco a outra turma porque várias garotas gostavam de ficar conosco. Alguns pequenos conflitos eram inevitáveis mas nada que chegasse a violência. Eu já tocava violão e comprei uma guitarra Gianinni SG vermelha e um amplicador. Comecei a me interessar muito em ser músico e comecei a estudar sobre o instrumento. Eu trabalhava no Banco Nacional da Agência Barão de Itapetininga no centro de São Paulo. Me aproveitando disso, torrava minha grana toda em discos que comprava no Museu do Disco e na Galeria do Rock. Também gastava em revistas, shows, mulherada e na troca de instrumentos e amplificadores, situação que ia aumentando naturalmente a cada dia por causa do meu total envolvimento com a música.  Havia uma turma no colégio que estava querendo montar uma banda. Éramos em quatro: Eu, o Beá Junior, o Magoo e o Márcio. Eu tinha guitarra e amplificador, o Márcio tinha bateria, o Magoo arrumou um baixo emprestado e pro Beá sobrou o vocal. Vamos tocar juntos? Pensamos e marcamos um dia na casa do Márcio. Ao fim da primeira audição, decepção. Porra, o Márcio tinha uma bela batera e um local ideal para ensaiar mas era um péssimo baterista. Era um cara super legal e um tremendo gozador. Colocava apelido em todos. O Magoo se tornou "Camba", abreviação de Camboja. Porque? O uso de camisas rasgadas que pareciam ter participado da Guerra do Vietnã. O Beá era horrível cantando. Não ia dar. Passamos alguns dias pensando qual seria a solução correta a se tomar. Me lembrei da irmã de uma amiga minha. Era um avião de mulher. Bonita e jeitão típico para vocalista de uma banda de rock. Pronto. Estava decidido que a Vera faria um teste nos vocais da banda que já havia sido batizada com o nome Salario Minimo. A idéia do nome da banda foi do Magoo, avalizada pelo Beá e prontamente aceita por mim que naquele instante era uma espécie de cabeça da banda. O Beá arrumou uma batera emprestada de um amigo e assumiu as baquetas. Eu fiquei na guitarra, o Magoo no baixo e a Vera nos vocais. Fizemos alguns ensaios e nova decepção: A Vera era gostosa pra caramba mas não servia para ser vocalista apesar de todo seu visual. Dispensamos a gata sem ressentimentos. Mas o que fazer? Quem poderia ser vocalista da banda? Idéias vinham e iam na mesma rapidez e a cada dia que passava queríamos tocar. Eu já estava compondo algumas músicas, o Beá fazendo letras e a coisa estava fluindo. Precisávamos arrumar um vocalista rapidamente. De repente, uma baixa na banda: Magoo. Saiu e foi tocar com uns caras. Recentemente tive conversando com ele por várias horas e lembramos muitas passagens daquele período. Lembrou-me o Magoo, que quando ele saiu da banda, foi num dia em que estávamos terminando uma música no meu apartamento. A letra quem mostrou foi o Beá, mas a discórdia veio no nome da música: Nada de Sexo. Porra, o Magoo ficou indignado e junto comigo tentamos convencer o Beá que o título não era bom. Garotas e sexo era justamente o que a gente mais queria na época e o nome da música não combinava nada com isso. O Magoo, puto da vida com a relutância do Beá, saiu chateado do meu apartamento. Daí em diante buscamos um novo baixista. Ficamos eu e o Beá. Será que ninguém da nossa turma teria o perfil de vocalista para a banda? Seria assim tão difícil arrumar um baixista? O ano de 77 terminou e começamos 78 firmes em tocar rock mas sempre alternando algumas formações. Músicos fixos só dois: Eu e o Beá, que assumiu definitivamente e bem as "baquetas". Chamamos o Plínio para o vocal. Cabeludo, maluco, doidão como a gente. Logo passamos a chamá-lo de Plínio Zacka. Apareceu do nada o Acássio para tocar baixo. Pronto. Tínhamos um perfil e um visual de banda de rock. O Salario Minimo estava começando a acontecer na Zona Sul de São Paulo. Fizemos vários shows com essa formação.

Acacio, Plinio Zacka, William Kusdra e Beá Junior
Tocamos em vários lugares. No Colégio onde estudávamos foram 2 shows. Fizemos um na Faculdade Osec também, numa sexta-feira chovendo pra caralho. Chegamos a participar de um Festival onde nos apresentamos como convidados ao lado de Guilherme Arantes e da Diana Pequeno. Nesse show estávamos piradíssimos. Cheios de energia. Rock and Roll a todo vapor. A Banda Salario Minimo estava decolando. Nesse período comecei a me interessar em tocar Contra-Baixo. Comprei um e ficava tocando no meu apartamento. Aliás, vários ensaios da banda foram no meu apartamento. Vizinhos? Que se fodam. Ninguém reclamava para o nosso bem. Com a compra do Contra-Baixo, achei o que realmente estava à procura. Mas eu era o guitarrista do Salario Minimo e assim teria que ser pelo menos por enquanto. Tínhamos contato com vários músicos de outras bandas. Conheci o Lucio Zaparolli que era vocalista da Banda Santa Gang. Foi um dos caras que nos deu bastante apoio e que inclusive fizemos 3 shows juntos no Teatro da Biblioteca Kennedy em Santo Amaro. 3 dias lotados e foram inesquecíveis.


O Beá comprou a batera que era do Charles Gavin (Titãs) que na época era da Banda Zero Hora. O Plínio comprou o equipamento de voz do cara do Zero Hora também. Todo mundo começou a investir. Mas veio uma baixa na banda: O Acássio saiu e queria se dedicar a pintura e sua nova namorada. E agora? Estávamos sem baixista novamente e no final de 1979 tínhamos um show a fazer com várias bandas numa represa na Zona Sul de São Paulo, entre as bandas participantes, Salario Minimo, Santa Gang, Zero Hora, Lixo de Luxo, Fim da Picada e outras. Me lembro que aquele dia começou com muita chuva e não tínhamos um baixista. O Plínio foi a minha casa e disse que levaria um amigo para o show que tocava guitarra e poderia fazer a função de baixista. Nos encontramos poucas horas antes do show. O Plínio nos apresentou, era o Junior Muzilli. Passei rapidamente algumas músicas pra ele e falei: Cara, você tá na banda. Se vira e corre atrás. Topa? Ele topou na hora. Loucura? Sim. Afinal, loucura era pouco pra nós. Achei interessante porque o Muzilli queria tocar guitarra também. Isso foi muito legal e passamos a revezar durante os shows, Eu e o Muzilli na guitarra e no baixo.


A formação durante bom tempo e em vários shows ficou assim:
 William Kusdra: Guitarra/Baixo
Junior Muzilli: Guitarra/Baixo
Beá Junior: Bateria
Plínio Zacka: Vocal

Nessa época, o Lucio me convidou para tocar com o Santa Gang num show no Teatro Brigadeiro, abrindo pra Patrulha do Espaço. Era um prazer abrir um show da Patrulha. Eu conhecia o Dudu Chermont mas não conhecia o Rolando Junior pessoalmente. Sempre o achei o melhor baterista de rock desde os tempos do Made in Brazil. Então para mim aquilo seria um sonho a ser realizado. Mas não sei o que realmente aconteceu naquele dia entre o Lucio e o Junior que acabou não rolando a abertura. Fiquei chateado e fui embora frustrado. De qualquer forma, isso não me impediu de ir à vários shows da Patrulha, banda que eu tinha como a principal do rock brasileiro ao lado do Made in Brazil.
Mas o Salario Minimo seguia o caminho e estávamos em 1980. O Junior Muzilli ofereceu para começarmos a ensaiar na casa dele que ficava do outro lado da cidade. Seria uma mudança radical na história da banda. Sair de Santo Amaro (Zona Sul) e ir para a Vila Maria (Zona Norte). Mas topamos porque o que interessava mesmo era tocar rock. Fazer rock. E isso a gente fazia.
Porém, eu já apresentava sinais de envolvimento total com o rock progressivo e cada vez mais me aprofundando nessa vertente, somado ao prazer de querer cada vez mais tocar Baixo. O Salario Minimo era uma banda de rock pesado e estava subindo degrau por degrau, mas eu não estava feliz. Afinal de contas, como fundador da banda junto com o Beá, me senti incomodado com o caminho que estávamos tomando. Não era o que eu queria. Eu queria fazer um som mais elaborado, mais trabalhado, mais técnico e isso não era a cara do Salario. Não por capacidade, muito contrário, apenas porque eu queria algo mais. Foi muito tempo pensando e nesse período conheci o Wagner Anarca que tinha uma banda de rock também e que estava mudando os membros. Fizemos alguns ensaios juntos e ele me aceitou como baixista. Fiquei contente e tomei minha decisão. Comuniquei aos caras do Salario Minimo que iria tomar outro rumo. Mas antes disso, tinhamos um show marcado na Faculdade FMU, onde o Muzilli estudava e um outro com a Banda Zero Hora no Sesc da Vila Mariana.
Fiz os dois shows e me despedi dos caras. Sem mágoas. O Salario Minimo seguiria seu caminho e eu buscava o meu. Minha saída da banda ocorreu em 1981. Mais tarde o Magoo voltaria para banda, o Plínio iria sair. A formação mudou mais algumas vezes e o resto todo mundo sabe.
Encontrei com o Magoo há cerca de dois anos e ele me contou que tem contato com o ex-batera Nardis, que tocou com a banda e participou da gravação do disco Beijo Faltal e que ele desconhecia essa história. Ficou surpreso e ao mesmo tempo contente em saber da verdade.
Na segunda metade de 1981 fui para a Banda Anarca. Um maravilhoso período que vou contar um pouco numa próxima matéria.
No início dos anos 90, Eu, o Júnior Muzilli e o Beá, voltamos a tocar juntos na Banda Primeiro Vício. Por problemas particulares e profissionais, tive que deixar a banda. Mudei de cidade e ainda mantenho contato com vários amigos de todo aquele período.

É preciso deixar registrado também, que infelizmente o Beá Júnior já faleceu.
Então é isso. Está registrada a verdadeira história do início da banda.
Aos amigos de verdade, um grande abraço e saudações rock and roll.

3 comentários:

  1. William: muito importante contar a história de uma banda pelo ponto de vista interno. Existe muita bobagem sendo escrita e a verdadeira história acaba se perdendo. Muito bom o texto!

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  2. Gostei da história! Sou filha do Bea.

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    1. Olá Gabriela. Que legal te encontrar aqui.

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